Além da Autoconfiança, O Que Mais Vitalik Está Refletindo?
Além da Autoconfiança, O Que Mais Vitalik Está Refletindo?
No mercado cripto atual, está cada vez mais difícil distinguir onde termina a “tecnologia” e onde começa o espetáculo financeiro. No entanto, Vitalik Buterin, cofundador do Ethereum, continua sendo uma das poucas figuras públicas que ainda trata o blockchain como uma disciplina de engenharia — algo que deve se tornar mais verificável, mais privado, mais resistente à censura, e, no fim das contas, mais útil do que simplesmente seu gráfico de preço.
O mais marcante não é apenas o que ele argumenta, mas com que frequência ele vem argumentando. A partir de 2025 — especialmente com as grandes atualizações do Ethereum e a indústria se voltando para narrativas de curto prazo — os textos e threads longas de Vitalik se tornaram notavelmente mais densos e abrangentes. Ao ler suas publicações, percebe-se um padrão: ele não está simplesmente “defendendo o Ethereum”. Ele está colocando em teste os pressupostos que trouxeram o Ethereum até aqui — e perguntando o que precisa mudar para que o mundo cripto mereça suas próprias promessas.
A seguir, um mapa estruturado dos temas que Vitalik vem retornando repetidamente — da escalabilidade à privacidade, da identidade à computação soberana — e por que esses temas serão cruciais para desenvolvedores e usuários em 2026.
1) Escalar não é só uma questão de taxas — é uma questão de garantias de segurança
Durante anos, a maneira mais simples de explicar a escalabilidade do Ethereum era: “L2s tornam as taxas mais baratas.” A abordagem de Vitalik em 2025–2026 vai além: escalar só faz sentido se aumentar o espaço de bloco que herda a neutralidade crível do Ethereum — ou seja, garantir que transações válidas possam ser incluídas sem depender de permissões ou da boa vontade de um pequeno comitê.
Dois pontos técnicos concretos são constantemente mencionados:
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A camada 1 (L1) do Ethereum ainda deve escalar (com cautela). Em fevereiro de 2025, Vitalik argumentou que, mesmo em um futuro dominado pelas L2s, aumentar os limites de gás da L1 tem valor a longo prazo para resistir à censura, facilitar a movimentação de ativos entre L2s, e permitir “saídas em massa” quando algo der errado. Essa visão é detalhada em seu ensaio “Reasons to have higher L1 gas limits even in an L2-heavy Ethereum” (link).
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“Rollup-centric” não significa automaticamente “minimizar confiança.” No início de fevereiro de 2026, Vitalik passou a questionar publicamente se a visão original de L2s como "shards de marca" ainda fazia sentido, considerando a lentidão de muitas L2s em implementar garantias reais de descentralização (link).
Isso não é um ataque às L2s — é um apelo para que o ecossistema pare de tratar “transações acontecendo fora da cadeia” como sinônimo de “Ethereum escalado”.
O que os usuários devem tirar disso em 2026
A pergunta central passa a ser: em quem ou no que estou confiando, exatamente? Não basta saber se é uma L2, mas também: o quão atualizável ela é, quem pode intervir, quem pode censurar, e como funcionam as saídas?
Um recurso útil é o framework de “Estágios” de maturidade de L2s, mantido pelo L2BEAT (link). Vitalik também contribuiu com uma análise sobre quando é racional migrar entre estágios em seu texto “The math of when stage 1 and stage 2 make sense” (link).
2) Pectra (maio de 2025) tornou “carteiras como software” item de primeira classe no roadmap
A atualização Pectra do Ethereum foi ativada em 7 de maio de 2025 (link; resumo: link). Dentre várias mudanças, uma delas teve impacto direto no cotidiano dos usuários:
- A EIP-7702 apresentou um caminho para que as EOAs adquiram comportamento programável (frequentemente discutido como etapa rumo à abstração de contas) (link).
Por que isso importa tanto para Vitalik? Porque, se a auto-custódia continuar significando “memorize uma seed e nunca erre,” o uso mainstream continuará migrando para custodians centralizados e carteiras estilo “Web2.5” — o que mina todo o propósito do blockchain como sistema verificável.
Em outras palavras: a experiência de uso da carteira agora é a experiência de usar o protocolo em si.
3) Simplificar o protocolo para que ele sobreviva à próxima década de complexidade
Um fundador que está apenas fazendo marketing não publica ensaios como “Simplifying the L1”. Vitalik publicou — em 3 de maio de 2025 (link).
Dois recados se destacam:
- O consenso deve ficar mais simples, não mais rebuscado. Ele discute tendências como finalizações mais rápidas e um design mais direto, com menos partes móveis.
- Complexidade na execução é dívida técnica real. Ele critica abertamente o acúmulo de complexidade na EVM e propõe ideias mais radicais a longo prazo — como novas VMs — para amadurecer o sistema além de melhorias incrementais eternas.
Este é o tipo de “autocrítica” que muitos notam — mas não é negação gratuita. É um instinto de engenheiro: se o Ethereum ficar complexo demais para ser compreendido, a verificação se torna apenas performática — e a descentralização vira encenação.
4) Privacidade não é opcional; é condição para liberdade (e segurança)
Em 2025, Vitalik não escreveu sobre privacidade como um simples “extra técnico”, mas como um padrão civilizatório.
Vale destacar seu post “Why I support privacy” (14 de abril de 2025) (link). Embora aborde implicações amplas, a mensagem para blockchains é clara:
- Se cada transação, saldo, grafo de interação e vínculo de identidade for público por padrão, então a autonomia financeira se transforma em vigilância permanente — por empresas, governos e qualquer um com acesso a ferramentas analíticas.
Essa visão também impacta o design de carteiras: privacidade não é só sobre mixers ou criptografia avançada. Ela começa com padrões simples — como minimizar reuso de endereços e separar contextos de atividade — ideias exploradas em “What I would love to see in a wallet” (link).
5) Identidade com ZK: “ZK-wrapped” não é sinônimo de “risco zero”
Com o amadurecimento da tecnologia ZK, o discurso dominante passou a ser: “É só adicionar ZK que a identidade fica segura.” Vitalik discordou.
No ensaio “Does digital ID have risks even if it’s ZK-wrapped?” (28 de junho de 2025) (link), ele argumenta que, mesmo com provas ideais de privacidade, não se eliminam:
- casos extremos e exclusões,
- falhas e comprometimentos de emissores,
- ataques contra sistemas “uma pessoa-uma identidade”,
- e problemas de governança que não têm solução criptográfica.
Isso é relevante para 2026, já que a identidade onchain está se expandindo (airdrops, prova de humanidade, reputação, camadas de acesso compliance-friendly). Vitalik alerta: não confunda privacidade criptográfica com segurança social.
6) “Computação autônoma” é a ponte entre o mundo cripto e o mundo real
Uma nuance em 2026 é que Vitalik começa a enquadrar o Ethereum não apenas como uma rede financeira, mas como parte de uma visão mais ampla de computação controlada pelo usuário — reduzindo a dependência de intermediários centralizados em mensagens, documentos e software.
Esse tema apareceu em janeiro de 2026 nas discussões sobre “computação soberana”, como resumido na cobertura da mídia especializada (link). Mesmo que nem todas as ferramentas mencionadas se tornem populares, o ponto estratégico se mantém:
Se o cripto não servir para que o usuário tenha suas chaves, possa verificar sistemas e preservar privacidade no cotidiano, ele corre o risco de virar apenas um jogo financeiro de nicho — independentemente do seu valor de mercado.
O que isso significa para os usuários em 2026: um checklist prático
Ao condensar a trajetória de Vitalik entre 2025 e 2026 em ações concretas para os usuários, temos:
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Prefira sistemas que você pode verificar (ou que estão caminhando para isso). Trate controles centralizados como riscos reais, não meros detalhes. Use recursos públicos como a página de Estágios do L2BEAT (link) para validar suas suposições.
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Considere o vazamento de privacidade como falha padrão. Crie bons hábitos: use contas separadas, evite reusar endereços e adote carteiras que facilitem fluxos mais privados.
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Adote mecanismos de segurança para contas — muito além de senhas fortes. Recuperação social, agrupamento de transações e assinaturas seguras não são “extras” — são as bases para uma auto-custódia viável em larga escala, exatamente o tipo de UX viabilizado pelas mudanças como o Pectra (link) e propostas como a EIP-7702 (link).
Onde entra a OneKey (quando “soberania do usuário” vira prática real)
Se a indústria de fato está voltando a priorizar autenticação e custódia próprias, então a segurança das chaves se torna a base — e não um detalhe técnico.
A carteira física OneKey é construída com isso em mente: manter chaves privadas isoladas, longe de ambientes online, suportar verificações transparentes (incluindo código aberto), e viabilizar o uso prático de sistemas onchain por pessoas comuns — sem transformar “um clique errado” em perda total.
Dado o foco recente de Vitalik em reconstruir a soberania individual, o raciocínio fica simples: não faz sentido falar em minimizar confiança se você assina transações valiosas em um dispositivo permanentemente conectado à internet.



