Cinco anos após o GameStop: o que o mercado de ações precisa hoje?
Cinco anos após o GameStop: o que o mercado de ações precisa hoje?
Em 28 de janeiro de 2021, milhões de investidores de varejo descobriram uma verdade desconfortável sobre o mercado de ações dos EUA: você pode até “possuir” uma ação em um aplicativo, mas ainda depende de várias camadas de intermediários—corretoras, câmaras de compensação e infraestrutura de liquidação—para concluir de fato a negociação. Quando diversas corretoras restringiram a compra (mas não a venda) de ações altamente voláteis, os chamados “meme stocks”, esse episódio se tornou um símbolo duradouro da fragilidade estrutural dos mercados e do acesso assimétrico—questões amplamente analisadas no Relatório da SEC sobre a estrutura dos mercados em ações e opções no início de 2021.
Avançamos para 28 de janeiro de 2026—o quinto aniversário do “momento GameStop”. Esse episódio não é mais apenas uma memória cultural; tornou-se um estudo de caso sobre o que os mercados de capitais ainda carecem e por que a infraestrutura financeira baseada em blockchain continua surgindo nas discussões mais sérias sobre os bastidores do sistema financeiro.
Este artigo se concentra em uma única pergunta: o que o mercado de ações precisa agora — e o que o cripto e a blockchain podem realmente contribuir?
1) A principal lição: velocidade na liquidação não é recurso de usabilidade — é risco sistêmico
Na época, o debate público girou em torno do “botão de compra desativado”. Por trás disso, o verdadeiro detonador foi uma reação em cadeia na gestão de riscos: volatilidade extrema + posições concentradas + um ciclo de liquidação de vários dias criaram demandas súbitas de garantias para as corretoras.
As autoridades reagiram. Os EUA passaram de liquidar em T+2 para T+1 em 28 de maio de 2024, classificando oficialmente a mudança como um reforço de resiliência para reduzir o risco de liquidação com atraso (comunicado da SEC sobre o T+1; veja também o boletim da Investor.gov sobre o T+1).
Foi um avanço—mas também um lembrete: mesmo com T+1, a liquidação de ações ainda está longe de ser em “velocidade da internet”. A execução das ordens está mais rápida do que nunca, mas a transferência de propriedade e o movimento final do dinheiro continuam limitados por raízes legadas.
O que o mercado precisa agora não é apenas liquidação mais rápida, mas também mobilidade de garantias mais eficiente, infraestrutura transparente e programável—sem abrir mão da proteção ao investidor.
2) A principal promessa do cripto na era GameStop: reduzir a dependência de intermediários
Nas finanças baseadas em blockchain, a liquidação se aproxima muito mais da noção de “finalidade de negociação”: os ativos se movimentam na rede e podem ser verificados publicamente. Ainda existem intermediários (corretoras de cripto, emissores de stablecoins, provedores de RPC), mas a diferença está na arquitetura:
- Autocustódia permite controle direto sobre os ativos, sem envolvimento de uma corretora.
- Liquidação atômica (ex.: trocar A por B em uma única transação) elimina a reconciliação em vários dias.
- Garantias programáveis se movem e são reutilizáveis sob regras explícitas (via smart contracts), em vez de processos operacionais obscuros.
Por isso, o debate sobre o GameStop se conecta facilmente com temas cripto como risco de contraparte, acesso ao mercado e resistência à censura—mesmo que ações e blockchain ainda não sejam compatíveis de forma imediata.
3) Tokenização em 2025–2026: da teoria para infraestrutura regulada
Durante anos, “ações tokenizadas” pareciam uma ideia exclusivamente cripto. Mas o cenário institucional em 2025 e 2026 mudou: mais projetos-piloto, mais reguladores envolvidos e mais infraestrutura financeira sendo construída usando blockchain.
Um marco importante veio do coração da infraestrutura de mercado:
- Em dezembro de 2025, a DTCC anunciou que sua subsidiária, DTC, recebeu uma Carta de Não Ação da SEC para oferecer serviços de tokenização para determinados ativos custodiados pela DTC, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2026 (comunicado da DTCC; página institucional: tokenização de ativos digitais pela DTCC).
- Antes disso, a DTCC já havia sinalizado potencial na tokenização de garantias, lançando uma iniciativa para gerenciamento de garantias em tempo real utilizando tokens em abril de 2025 (anúncio da DTCC).
Isso tem um peso especial: a aplicação mais viável da tokenização no curto prazo não é negociação de meme stocks em blockchain, mas a modernização do back-end das finanças institucionais—ou seja, liquidação, garantias e fluxos de caixa.
4) Por que as stablecoins viraram a “ponte” de liquidação (e por que a regulamentação importa)
Para operar mercados 24h por dia e 7 dias por semana na blockchain, é preciso ter dinheiro on-chain. E na prática, esse papel foi assumido pelas stablecoins.
Em 2025, os EUA deram um passo determinante para trazer clareza regulatória: o GENIUS Act criou um arcabouço federal para stablecoins de pagamento, incluindo padrões de reservas e exigências de supervisão (resumo do Congressional Research Service; análise jurídica: resumo da Covington).
Ao mesmo tempo, os legisladores também tentam clarificar a estrutura mais ampla dos mercados cripto. O Digital Asset Market Clarity Act (CLARITY) passou na Câmara em 2025 e iniciou tramitação no Senado no mesmo ano (página oficial do projeto no Congresso).
Conexão com o caso GameStop: se um dia as ações forem liquidadas via blockchain, as stablecoins (ou depósitos tokenizados) são candidatas naturais para representar o lado monetário—mas só se houver confiança, por parte de reguladores e participantes, na composição das reservas, capacidade de resgate e modelo de conformidade regulatória.
Vale mencionar: embora instituições globais apoiem a tokenização em geral, são mais cautelosas quanto ao uso de stablecoins como “dinheiro” no sistema central (ver BIS: Próxima geração do sistema monetário e financeiro, 24 de junho de 2025).
5) Ativos do mundo real (RWA) já estão escalando—e começam pelos Treasuries, não pelas ações
Quem busca um indicador concreto da demanda por tokenização deve olhar para onde ela de fato cresceu: títulos do Tesouro dos EUA tokenizados (e produtos similares a fundos de renda fixa), usados como colateral e geração de rendimento on-chain.
Em 27 de janeiro de 2026, os dados da RWA.xyz mostram que os Treasuries tokenizados acumulavam um valor total superior a US$ 10,08 bilhões (painel de Treasuries tokenizados da RWA.xyz).
Essa tendência é relevante porque os Treasuries são considerados colaterais de alta qualidade em mercados financeiros globais. Colocá-los na blockchain permite:
- movimentação mais ágil das garantias,
- gestão de liquidez mais contínua,
- controle de risco programável (ex.: regras de haircut, elegibilidade),
- composição com plataformas de negociação e empréstimo on-chain.
Ou seja, RWAs já estão resolvendo os “canos” da infraestrutura, e não apenas a interface de negociação.
6) Então, o que o mercado de ações precisa agora? Um checklist prático
Cinco anos após o 28 de janeiro de 2021—e quase dois anos depois do T+1—o que precisa ser feito está se tornando mais evidente:
A) Mobilidade de garantias em (quase) tempo real
Não basta negociar mais rápido—é preciso absorver risco mais rapidamente. Plataformas de garantias tokenizadas querem atacar exatamente esse ponto, principalmente no segmento institucional (iniciativa da DTCC com garantias em tempo real).
B) Infraestrutura de mercado transparente e auditável
A confiança dos investidores foi abalada em 2021 também pela falta de clareza e atraso nas explicações. Blockchains públicas trazem verificabilidade, mas mercados regulados também exigem privacidade, controle de acessos e segurança jurídica—por isso, o crescimento de soluções permissionadas ou híbridas.
C) Mecanismos de liquidação programáveis
Smart contracts podem codificar a lógica de liquidação, ações corporativas, regras regulatórias e garantias. O BIS já descreveu a tokenização como transformadora—desde que a governança e o gerenciamento de riscos estejam bem estruturados (ver BIS/CPMI: Tokenisation concepts and implications, 21 de outubro de 2024).
D) Marco regulatório sério para finanças on-chain
As regras para stablecoins (GENIUS) e a proposta para estrutura de mercado (CLARITY) não são apenas “vitórias do setor cripto”. São condições essenciais para integrar títulos tokenizados ao sistema financeiro tradicional.
7) Realidade do usuário: mesmo “mercados on-chain” falham se a custódia for comprometida
Seja guardando BTC, stablecoins ou ativos do mundo real tokenizados, um risco permanece constante: se sua chave privada for comprometida, você perde o controle sobre seus ativos.
Com a expansão da tokenização, os usuários tenderão a se envolver com:
- stablecoins para pagamentos e liquidação,
- Treasuries tokenizados como garantias ou geradores de rendimento,
- ações/ETFs tokenizados, conforme a regulação amadurece.
Isso traz de volta a autocustódia para o centro do debate—não como ideologia, mas como questão de segurança operacional.
Uma carteira física (hardware wallet) continua sendo a forma mais direta de reduzir o risco de ataques online, mantendo as chaves privadas fora da internet. Para quem quer construir uma estratégia sólida no ecossistema on-chain (especialmente com saldos maiores ou em várias redes), o OneKey pode ser uma ferramenta prática para manter controle sobre os ativos, compatível com múltiplas blockchains e fluxos de trabalho Web3.
Considerações finais
O caso GameStop nunca foi apenas sobre uma única ação. Foi sobre quem tem acesso confiável quando o mercado entra em crise—e até que ponto o sistema financeiro moderno ainda depende de processos frágeis, opacos e cheios de etapas.
Em 2026, o caminho mais promissor parece híbrido: melhorar os trilhos tradicionais (com o T+1 e além), ao mesmo tempo em que se adota gradualmente os recursos nativos da blockchain onde eles realmente oferecem vantagens—como mobilidade de garantias, liquidação programável e dinheiro digital disponível 24/7.
Se os próximos cinco anos forem sobre mover partes dos mercados de capitais para o on-chain, então a pergunta não é se o cripto “vai substituir” as ações, mas se conseguiremos construir um sistema no qual o acesso ao mercado não desapareça justamente quando ele é mais necessário—e no qual os usuários realmente controlem o que possuem.



