É Este Um Inverno Cripto? O Mercado Já Não É o Mesmo
É Este Um Inverno Cripto? O Mercado Já Não É o Mesmo
Os mercados de criptoativos sempre foram cíclicos. Quando os preços começam a cair, a liquidez seca e as narrativas mudam de “adoção em massa” para “será que a cripto morreu de novo?”, o termo inverno cripto inevitavelmente reaparece.
Mas aqui está o ponto fundamental: a atual fase de baixa está ocorrendo num contexto muito diferente de 2014, 2018 ou mesmo 2022. A regulamentação passou de ações punitivas retroativas para criação de regras estruturais, as instituições agora atuam através de canais regulados e as prioridades dos usuários mudaram para segurança, transparência e custódia própria.
Este artigo aprofunda a discussão sobre a “mudança de mercado pós-regulação” e atualiza o panorama com as transformações ocorridas até 2025 e início de 2026.
O Que “Inverno Cripto” Significava Antigamente
Historicamente, um inverno cripto não significava apenas queda de preços. Era geralmente uma crise de confiança, causada por um (ou mais) dos seguintes fatores:
- Colapso de grandes custodiantes ou exchanges, minando a confiança
- Alavancagem sendo desfeita num mercado com pouca liquidez
- Choques regulatórios que bloqueavam acesso ao sistema financeiro tradicional
- Um longo período no qual os desenvolvedores continuavam ativos, mas o capital praticamente desaparecia
1) 2014: Mt. Gox e a crise de confiança nas exchanges
O primeiro inverno cripto amplamente reconhecido começou em 2014, com o colapso da Mt. Gox—então a principal exchange de Bitcoin—após a perda massiva de fundos de clientes e processo de falência. Não foi apenas uma queda de mercado; foi uma lição: “deixar criptos na exchange” pode ser um risco existencial. Para entender como a situação se desenrolou, veja a cobertura da CNBC na época (relatório da CNBC).
Lição do mercado: a confiança estava centralizada em poucos pontos, e quando um deles falhou, todo o ecossistema parou.
2) 2018: o colapso das ICOs e o sumiço da demanda
O ano de 2018 ficou marcado pelo “ressacão” pós-ICO: muitos tokens, pouco produto com mercado real, e uma evaporada geral da demanda. O Bitcoin chegou a perder mais de 80% do seu valor, e o mercado redimensionou as expectativas de crescimento para praticamente zero. Uma análise da época descreve bem a magnitude da correção (análise da CNBC).
Lição do mercado: emissão especulativa pode ultrapassar — de longe — a utilidade prática, e a liquidez pode desaparecer mais rápido do que se imagina.
3) 2022: contágio sistêmico (stablecoins, credores, exchanges)
O ciclo de 2022 foi diferente: alavancagem interconectada, balanços opacos e falências em cascata por toda a indústria. O colapso do ecossistema Terra, sozinho, eliminou dezenas de bilhões em valor e desencadeou um efeito dominó de desalavancagem (resumo aqui: cobertura da AP sobre o caso Terra). Depois, a falência da FTX consolidou a percepção de que governança e controles internos são tão importantes quanto a tecnologia (contexto: cobertura da AP sobre a falência da FTX).
Lição do mercado: “risco de contraparte” não é piada—é o risco central em estruturas de finanças centralizadas no mundo cripto.
O Que Mudou: Regulamentação Está Redesenhando a Estrutura do Mercado
Se os invernos anteriores foram definidos pelo que quebrou, o que vemos agora é um ciclo definido crescentemente pelo que está sendo construído ao redor do ecossistema cripto: licenciamento, regras sobre stablecoins, regimes de transparência e padrões de resiliência operacional.
União Europeia: MiCA já está em vigor, e a conformidade é mensurável
A Regulamentação de Mercados de Criptoativos (MiCA) da UE já é uma realidade. As regras relacionadas a stablecoins começaram a ser aplicadas em meados de 2024, com o arcabouço mais amplo entrando em vigor no final de 2024, havendo períodos de transição em alguns países. A própria Comissão Europeia detalha esses prazos (atualização sobre Finanças Digitais).
Mais importante para os usuários: a fiscalização está ganhando forma. A ESMA está publicando um Registro Provisório MiCA—com provedores de serviços cripto autorizados e dados de divulgação—com atualizações previstas até 2026 (página MiCA da ESMA).
Por que isso importa num momento de baixa: quando os preços caem, o usuário quer saber menos sobre promessas e mais sobre quem é licenciado, como funciona a custódia e quais informações são divulgadas.
Resiliência operacional agora é prioridade (não mais opcional)
Mesmo fora das regras específicas do setor cripto, exigências do setor financeiro tradicional já impactam empresas cripto e seus fornecedores. A Regulamentação de Resiliência Operacional Digital (DORA) da UE começou a valer em 17 de janeiro de 2025 (nota da EBA sobre DORA).
Por que isso importa: falhas de segurança ou instabilidades operacionais não são mais apenas problemas técnicos—tornam-se riscos regulatórios e de continuidade que podem definir quem sobrevive ou não ao próximo ciclo.
EUA: stablecoins agora têm lei; estrutura de mercado ainda em debate
Uma mudança significativa ocorreu em 18 de julho de 2025, quando os EUA aprovaram a Lei GENIUS, estabelecendo um marco regulatório federal para as stablecoins de pagamento (declaração oficial da Casa Branca; registro legislativo: Congress.gov — S.1582).
Enquanto isso, outras propostas sobre a estrutura de mercado seguem avançando no Congresso. A Lei de Clareza do Mercado de Ativos Digitais de 2025 foi aprovada na Câmara e enviada ao Senado em setembro de 2025 (Congress.gov — H.R.3633).
Por que isso importa num “inverno”: clareza regulatória não garante alta de preços, mas reduz riscos extremos—especialmente com relação a stablecoins, intermediação e transparência.
O Que Mudou: A “Infraestrutura” da Economia Cripto Está Mais Matura
Mesmo com oscilações nos preços, várias tendências estruturais continuaram crescendo até 2025:
1) ETFs institucionais mudaram a dinâmica de liquidez
ETFs de Bitcoin à vista criaram um novo canal regulado para fluxo de capital—às vezes facilitando o acesso, às vezes amplificando os movimentos. A Farside publica um painel muito usado com dados diários sobre fluxos nesses ETFs (Farside Investors — Bitcoin ETF flows).
Impacto prático: em invernos anteriores, o mercado era dominado por alavancagem offshore e exchanges fragmentadas. Hoje, parte significativa da atividade marginal acontece por meio de instrumentos regulados e fluxos transparentes.
2) Stablecoins deixaram de ser “infraestrutura nativa” para se tornarem prioridade política
Stablecoins agora fazem parte de discussões sobre pagamentos, competição bancária e estabilidade financeira—principalmente depois das novas leis nos EUA e na UE. Ou seja, o debate sobre design, reservas e redimibilidade deixou de ser técnico e passou a ser política pública.
3) Tokenização de ativos reais (RWA) avançou mesmo com mercado em baixa
Uma das narrativas dominantes de 2025 foi a tokenização de ativos reais: crédito privado, títulos públicos e soluções para liquidação. O Banco de Compensações Internacionais (BIS) declarou que a tokenização pode tornar os mercados mais eficientes, alertando que, sem regulamentação, stablecoins não são base sólida para sistemas monetários (comunicado do BIS; capítulo completo: Relatório Econômico Anual 2025 do BIS, Capítulo III).
Por que isso importa: o “inverno” costumava significar fim do financiamento e abandono institucional. Hoje, mesmo com o mercado oscilando, as conversas sobre tokenização e liquidação regulada continuaram ativas.
Então… Isso É Um Inverno Cripto?
Depende se você define inverno como queda de preços ou desorganização estrutural.
Uma maneira útil de responder é fazer três perguntas:
-
O capital está saindo de forma definitiva ou apenas reprecificando risco?
Os fluxos de ETFs e a atividade institucional indicam que o risco é reprecificado—mas o acesso continua. -
As estruturas centrais estão quebrando ou sendo reconstruídas com regras?
Registros MiCA, leis sobre stablecoins e padrões de resiliência mostram que as bases estão sendo formalizadas. -
Usuários estão sendo forçados a sair ou a evoluir?
A lição pós-2022 foi clara: custódia própria, provas de reservas e vigilância sobre contrapartes deixaram de ser assunto para nerds e viraram preocupação mainstream.
Nesse sentido, o cenário atual se parece menos com uma onda de congelamento total e mais com um reinício do mercado sob nova regulação: a especulação arrefece, intermediários frágeis sofrem, mas a infraestrutura continua avançando.
O Que o Usuário Deve Fazer em Épocas de Baixa (Checklist Além do Preço)
Independente do nome que se dê ao momento, períodos de baixa exigem disciplina operacional.
1) Reduza a concentração de risco numa só contraparte
Se a falência de uma plataforma põe tudo em risco, você não tem diversificação—tem um ponto único de falha.
2) Trate a custódia própria como estratégia de longo prazo, não manobra emergencial
O momento ideal para configurar sua própria custódia é antes do caos no mercado. Carteiras físicas (hardware wallets) ajudam a manter chaves privadas isoladas da internet, reduzindo risco de malware e golpes.
3) Verifique o que puder, presuma menos e registre mais
- Mantenha inventário claro de endereços e ativos
- Guarde backups em segurança (e teste a recuperação)
- Separe fundos para uso diário dos investimentos de longo prazo
- Cuidado com assinaturas cegas e concessão de permissões
Onde a OneKey se Encaixa (Quando “Estrutura de Mercado” Vira Segurança Pessoal)
Se as regulamentações estão redesenhando exchanges e stablecoins, o paralelo disso no mundo do usuário é o reconhecimento gradual de que segurança é funcionalidade central, não um detalhe.
Para quem pensa no longo prazo, carteiras físicas como a OneKey se tornam parte importante dessa mudança, pois foram feitas para a autocustódia—mantendo chaves privadas offline, mas com interface amigável para uso diário em blockchain. Num mercado definido por transparência pós-regulação e lições dolorosas sobre risco de contraparte, o lema “posse das suas chaves” frequentemente separa quem sobrevive da volatilidade daqueles que perdem tudo com a falha de terceiros.
Para Fechar
Cada ciclo teve seu gatilho: 2014 foi sobre confiança nas exchanges, 2018 sobre excessos especulativos, 2022 sobre alavancagem sistêmica. A era 2025–2026 está cada vez mais marcada por regras, registros, resiliência e canais regulados—um mercado ainda volátil, mas estruturalmente mais maduro.
Então, se você está perguntando “Estamos em um inverno cripto?”, talvez a pergunta mais útil seja:
Seu setup está pronto para sobreviver ao próximo inverno—não importa o nome que ele tenha?



